
As dores da escravidão tiveram voz para que se perpetue e não apague a história da comunidade de Araçatiba, um quilombo que conta suas agruras através de sua arte tão contemporânea. O músico Michel Gomes foi incentivado a escrever e compor a música “Araçatiba, Terra da Resistência”.
Segundo o autor, a história contada e cantada em sua música gira em torno da construção da Igreja de Nossa Senhora da D’ajuda, local que se tornou sagrado não somente pelo resplendor de Maria, a mãe de Jesus, mas também pela força e resistência do povo que ergueu a construção embaixo de muito sofrimento.
“Minha esposa (Elivânia Aparecida) achou importante que eu fizesse uma música que não deixasse morrer a história de um povo. Ela acredita que, com o falecimento dos quilombolas, a nova geração fosse perder sua identidade”, justificou o músico Michel Gomes.
Ele próprio deixou sua característica musical de lado para construir um novo marco em sua carreira.
“Eu sou cantor de música sertaneja e brega e fazer essa música, para mim, foi totalmente novo”.
SOBRE O MÚSICO
Nascido em Vitória, Michel Gomes, de 43 anos, morou também na Serra. Aliás, vivia no Quilombo São José dos Queimados. E, de lá, vem sua identidade com seus ancestrais, algo que fluiu quase naturalmente na música dedicada aos quilombolas de Araçatiba.
Atualmente, Michel mora em Cariacica e disse que pretende conhecer o Congo de Roda D’água, algo que ainda não conheceu, mas irá conhecer assim que possível.
A MÚSICA
“Araçatiba, Terra de Resistência”
(Compositor: Michel Gomes)
(Verso 1)
Lá nas terras de Araçatiba
No tempo antigo do Brasil colônia
Se ouvia o som do açoite e da dor
Mas também nascia a força e a história
Era fazenda de cana e suor
Engenho girando noite e dia
Negros trazidos sem escolha e voz
Mas com fé resistiam e sobreviviam
(Pré-refrão)
Na senzala, lágrima no chão
Mas no peito um tambor batia
Era o congo, era oração
Era o povo que não se rendia
(Refrão)
Araçatiba, terra de fé e luta
Do sofrimento nasceu a cultura
Entre correntes e oração
Hoje vive a libertação
Araçatiba, memória viva no chão
Do Espírito Santo, do coração.
(Verso 2)
Ali se ergueu, no alto a brilhar
A Igreja de Nossa Senhora da Ajuda
Feita no tempo dos jesuítas
Guardando histórias que o tempo não muda
Entre senzalas e a casa grande
Ficou de pé como testemunha
De um povo forte que mesmo ferido
Transformou dor em fé profunda
A fazenda foi grande, dizem os mais velhos
Com engenho, oficinas e chão de sofrimento
Mas também foi refúgio, foi resistência
De um povo negro em movimento
(Pré-refrão)
No batuque ecoou o som da liberdade
Mesmo na escuridão da escravidão
Cada canto virou saudade
Cada lágrima virou canção
(Refrão)
Araçatiba, terra de fé e luta
Do sofrimento nasceu a cultura
Entre correntes e oração
Hoje vive a libertação
Araçatiba, memória viva no chão
Do Espírito Santo, do coração
(Ponte)
E hoje o congo ainda toca
Na voz do povo a tradição
Herança viva dos ancestrais
Que nunca soltaram a mão
A igreja lá no alto a olhar
Séculos guardando a história
De quem sofreu, mas não desistiu
E transformou dor em vitória
(Final)
Araçatiba não é só lugar
É raiz, é luta, é memória
De um povo que escreveu com fé
Sua própria história
Amo este lugar lugar bom de se viver tenho duas filhas que mora aí não posso esquecer que minha neta também mora aí Lugar bom de mais parabéns para o autor dessa canção parabéns
A nossa história não pode apagar.Temos que nos unir para manter nossa história viva.
Parabenizo o autor Michel Gomes, por valorizar o Quilombo de Araçatiba, num momento em que estamos resistindo e denunciando a possível tentativa de apagamento de nossa história.
Eu achei muito linda essa música
Sou moradora de Araçatiba 32 anos. Tenho orgulho dessa terra essa história.
Essa música representa a história de Araçatiba